Nuances de filosofia no esporte

O esporte permite a interação das pessoas em torno dos jogos e do desenvolvimento de habilidades corporais, além de todas as sensações que envolvem o ambiente competitivo.  

A prática esportiva foi introduzida pelos gregos com o nome de “ginástica”, caracterizando-se por exercícios disciplinados, com finalidade de desenvolver a destreza, a beleza e a força. Faziam parte da grade de atividades o atletismo (corrida e salto), além de natação, lançamento e levantamento de peso. O ideal da educação grega unia a ginástica e a arte para o melhor equilíbrio físico, intelectual e espiritual dos indivíduos.

Para os gregos, essa formação social apegada ao esporte e às artes resultava na formação de seres humanos mais éticos, virtuosos, capazes de pensar e mais próximos do ideal de perfeição presente no consciente coletivo. O conceito da “ginástica grega” perseguia objetivos físicos, espirituais e morais, o que Sócrates e Platão logo associaram aos modelos de educação da época, uma vez que para eles o homem era o conjunto formado por corpo e alma. 

Se a filosofia nos convida até hoje a enxergar o mundo sem apegar-nos a verdades absolutas, buscando escolhas que agreguem valor e potencializem os melhores atributos, quando a aplicamos ao esporte, complementamos suas lacunas, contribuindo para a formação do ser humano integral, desenvolvendo noções de igualdade, convivência, harmonia, justiça, confraternização, desenvolvimento do respeito pelo outro, pelas regras e pela competição.

 

Um garoto que rompe as barreiras da sociedade e consegue sair das periferias tornando-se um jogador de futebol profissional, é um bom exemplo sobre como funciona a filosofia do esporte, sobre como ele pode impulsionar corpos, mentes e almas.

“A filosofia é a ciência que, quando aplicada ao esporte, ensina a intelectuais com diplomas para que serve um atleta, não raro, sem diploma algum. Ela explica porque desde os tempos mais remotos da humanidade sempre fomos apaixonados pelos nossos atletas favoritos.”

  

A criação das Olimpíadas em 776 a.C é a prova máxima da importância que os antigos conferiam à prática esportiva. Vencer significava a glória, o reconhecimento pelos imperadores. Era um ritual que simbolizava a superação de obstáculos e as conquistas que nenhum ouro, prata ou prestígio poderiam comprar. Mindset que nos dias de hoje, no que diz respeito às práticas esportivas desde a tenra idade, o eco da tradição sobrevive somente em alguns poucos países.

Nas Olimpíadas modernas temos a oportunidade de perceber no quadro de medalhas um retrato em miniatura sobre o impacto das diferenças político-econômicas entre as nações e seus indivíduos.

Não é por acaso que, historicamente, EUA, Rússia, China e Grã-Bretanha ficam com a maioria das medalhas de ouro e prata. Esporte, seja ele intelectual ou de alto rendimento físico, exige o máximo de cada indivíduo. Cada detalhe faz diferença! O que come, como dorme, quando treina, como vive, como se relaciona com os demais indivíduos, a maturidade cognitiva e emocional… 

Como queremos que um atleta que viveu uma vida de privações, ausência de estrutura para treinar ou mesmo condições genéticas desfavoráveis para lidar com lesões e esforços acima do limite, dispute no mesmo nível com outro que, desde os 5 ou 6 anos de idade, vive em um ambiente desportivo de alto nível, sonhando e respirando a cada segundo com a sua medalha de ouro? Pensem nisso quando comemorarem as medalhas brasileiras em esportes como a Ginástica Artística ou Natação, por exemplo.

No Brasil, o governo vem evoluindo nos últimos anos em relação às políticas desportivas, muito em função do engajamento das forças armadas, patrocinando atletas, como pelo impacto da realização recente da Copa do Mundo e Olimpíadas no país. No entanto, com a crise após 2015 perdeu-se recursos importantes, principalmente em categorias de base e em esportes menos tradicionais que o popular futebol.

As empresas nacionais ainda olham com desconfiança para a prática do patrocínio desportivo, sem compreender ao certo os benefícios de vincular sua imagem à uma equipe desportiva, seja em esportes mais “elegantes” como o tênis, hipismo e patinação ou esportes massivos, como basquete, volley e handball.

A realidade da maioria dos atletas brasileiros, mesmo no futebol que é melhor estruturado, é de uma rotina com estrutura precária (alimentação e treinos) comparado à realidade de Europeus, Americanos e Asiáticos, com atletas deixando de treinar muitas vezes apenas pela falta do dinheiro para o transporte ou algum equipamento. 

É difícil imaginar resultados vendo o contraste com os programas que oferecem moradia gratuita, treinamento com profissionais diferenciados e equipamentos de última geração, acompanhamento médico adequado, alimentação balanceada, entre outros benefícios, oferecidos geralmente  junto a bolsas de estudos de grandes universidades fora do país, quase sempre formando campeões.

 

Por isso se fala tanto que por trás de cada medalha ou troféu há uma história longa, silenciosa e solitária de um atleta, seus companheiros (se um esporte coletivo), um treinador e sua família. Sem um bom técnico e acompanhamento familiar não se forma um campeão, nem se atinge o objetivo número 1 do esporte moderno nas sociedades, que é distanciar os jovens da violência, do individualismo, do comodismo, da baixa autoestima, tornando-os decididos, equilibrados e preparados para os desafios impostos pela idade adulta.

 

Aqui vale ressaltar que mesmo um familiar ou um técnico podem falar com muita propriedade sobre “como alcançar a vitória”, mas vencer é algo que só aprende lutando e muitas vezes perdendo. 

Você precisa se imaginar fazendo, muitas e muitas vezes, e então depois, precisa dar tudo de si para fazer mais e melhor, cada vez mais, porque você nunca estará sozinho… Sempre haverá alguém tão bom quanto você, te forçando a ir além, a superar-se e dar tudo de si por um objetivo.

 

Só o esporte nos ensina isso. Só o esporte nos ensina a competir no limite da força e da ética, buscando em nosso interior toda a nossa força para vencer, mas sem diminuir o adversário. É preciso manter elevada a honra, na vitória e na derrota. Essa é sem dúvidas a lição mais linda do esporte, que quase sempre nos ensina a perder para só depois ensinar a vencer. O legado definitivo de cada atleta para a humanidade.

Leia mais:
  1. Filosofia do esporte, ética, educação física e fair play.  <https://cev.org.br/biblioteca/filosofia-esporte-etica-educacao-fisica-fair-play/>
  2. Educação física para o corpo e filosofia para a alma. <https://editorarealize.com.br/revistas/conaef/trabalhos/Comunicacao_143.pdf>
  3. Filosofia e Educação Física: Apêndice Evolucionário?  <https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/filosofia-e-educacao-fisica
  4. Filosofia do Futebol. <https://universidadedofutebol.com.br/filosofia-do-futebol/
  5. Atletismo como filosofia de vida. <https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/editorias/jogada/atletismo-como-filosofia-de-vida-1.710929>
  6. A filosofia do xadrez e o xadrez como filosofia de vida. <https://www.docsity.com/pt/apostilas-sobre-a-filosofia-do-xadrez-e-o-xadrez-como-filosofia-de-vida/412378/>  
  7. Poker e filosofia: Pensar como melhorar o jogo de poker. <http://www.titanpoker.com/pt/book-review/how-to-be-a-poker-player-by-haseeb-qureshi.html>
  8. Filosofia do Poker: Desejo, Concentração e Clareza. <https://cardplayer.com.br/revistas/15/filosofia-do-poker-desejo-concentracao-e-clareza/343>
  9. Filosofia do Poker: Um estado de espírito. <https://cardplayer.com.br/revistas/42/filosofia-do-poker-um-estado-de-espirito/1204>
  10. Filosofia do Poker: O poker e a regra das 10mil horas. <https://cardplayer.com.br/revistas/20/filosofia-do-poker-o-poker-e-a-regra-das-10-000-horas/190